domingo, 12 de junho de 2011

Paixão Platônica

















No momento em que arrumava as malas para a Universidade ela lembrava de tudo o que viveu naquela escola perto de sua casa. Agora ela passaria cincos longos anos sem vê-la. Tudo o que viveu, viu ou sentiu naquela lugar fariam parte somente de uma lembrança que seria apagada aos poucos. Mas havia a lembrança de um dia em especial que ela sabia que jamais se esqueceria. Era só fechar os olhos e as imagens se tornavam nítidas. Os sentimentos confusos dançavam em sua mente feito bailarinas movimentando-se cada uma em um ritmo diferente, perdendo o compasso, caindo,confundindo-se.

Ela se lembrava de como o dia havia amanhecido claro, trazendo á tona um sentimento de esperança que há muito havia ficado esquecido, jogado em um canto. Em cada dia daqueles três anos que se passaram,eles trocavam olhares tão intensos que a fazia arrepiar. A sorte é que ela podia fazer isso por incontáveis minutos sem fazer parecer estranho. Era só fingir que prestava atenção em alguma das coisas que ele dizia. Ela até tentava, Deus, como tentava. Mas no segundo seguinte já estava imersa em pensamentos, criava histórias e situações tão absurdamente maravilhosas que a faziam sorrir feito boba.

O sentimento de esperança havia se fundido com o de coragem quando ela, decidida, apertou o caderno contra o peito e desceu por aquela escadaria que parecia mais interminável que o habitual. O tom de voz e as palavras que ele usou eram repetidos incansavelmente em sua cabeça. "Você pode me encontrar lá embaixo na hora do recreio?" Seus lábios tremeram num êxtase tão grande que ela sequer conseguiu responder. Então ela fez com a cabeça, abaixando-a e levantando-a sutilmente.

O medo de que ele não se lembrasse foi absolutamente desnecessário. Ela nem sabia mais o que era medo, quando chegou á ultima escada e o viu esperando por ela naquele banquinho. Aqueles outros alunos, conversando, rindo, brincando, alheios a qualquer coisa que pudesse ser importante, sequer conseguiram perceber a concretização de uma paixão que estava prestes a acontecer.
_ Oi... - ela disse, sorrindo o maior sorriso que conseguiu. - O que você queria falar comigo?
_ Sente-se aqui por favor, querida. - ele deu uma batidinha no lugar ao seu lado. Ela olhou para os dois lados, desconfiada, e se sentou. - Abra o seu caderno naquela página da lição.

E então ele recomeçou aquele discurso que ela já se acostumara a ouvir. Ele falava e falava. Ela fixava os olhos nos dele, demonstrando muito mais do que interesse, uma verdadeira devoção, um aviso de que ele seria devorado caso não a decifrasse. Ele apoiava uma das mãos no espaço ao seu lado quando ela descruzou os braços e apoiou a dela perto, tão perto que seus dedos puderam se tocar. O contato. O primeiro contato deles resultou em eletricidade. A famosa eletricidade da qual ele tanto falava. Agora ela podia entender. Era tão forte que poderia matá-los ali mesmo.

Seu coração estava a mil. Ela mordeu os lábios e e piscou algumas vezes até ter a coragem de mover a mão um pouco mais. Só mais alguns centímetros. Alguns centímetros. Que mal poderia haver? Logo o toque com a pele dele era maior. E os efeitos ainda mais intensos. Ele parou subitamente de falar a olhou nos olhos dela. Nenhum deles disse nada. Todo o ambiente envolta desapareceu. Haviam somente os dois ali. A mão que ele tinha livre moveu-se lentamente em direção ao rosto dela, o qual ele acariciou como se fosse tão delicado quanto porcelana. Ela sorriu e avançou um pouco mais. Um beijo. Um beijo rápido e sem um estalido sequer. E recuou receiosa. Mas ele a puxou de volta e prendeu os seus corpos perto demais. Ela segurou sua nuca e o beijou com a urgência de quem espera aquilo por anos. E ele queria também. Ela tinha certeza disso. Ela sempre teve certeza. Os dois respiravam cada vez mais rápido. Ela seria capaz de arrancar suas roupas e amá-lo ali mesmo. No chão. Em pé. Na mesa. Não importava. Importava que fosse ele. As mãos dela agarraram forte a blusa dele quase que a arrancando. Bem que ela gostaria. Depois de escutar um gemido baixo sair da boca dele ela sorriu triunfante. Ela a queria. A queria da mesma forma. Talvez, assim como acontecia com ela, ele a imaginasse durante as noites, quando deitava na cama a insônia tomava conta de todo o seu cansaço. Talvez ele pensasse no rosto dela no caminho para a escola. Talvez ele sussurrasse o nome dela baixinho enquanto dormia.
_ Você pertence a mim. - ela sorriu, segurando aquele belo rosto em suas mãos. Ela a pertencia, naquele momento, mais do que nunca.
_ Mellanie? Mellanie, você está prestando atenção? - ele perguntou. E naquela hora toda a claridade voltou. Os sons foram voltando aos poucos. A presença das dezenas de alunos á sua volta foi ficando mais nítida. Ela olhou assustada para ele, para seu rosto, sua blusa perfeitamente passada, suas mãos. Suas mãos...Apoiadas no banco, os dedos dele quase a tocar os dela. Mas só. - Mellanie?
_ Sim, professor?
_ Você entendeu o que eu acabei de explicar?
_ Sobre a eletricidade, né? - ela sorriu de forma encantadora. - Sim, professor. Eu entendi tudinho. Obrigada.
Ela levantou-se trêmula e voltou para a sala de aula. Seu coração ainda estava disparado, ela ainda sentia os efeitos que aquele momento com o professor provocava nela. Ela sabia que não podia contar a ninguém. Mas aquilo tinha sido real. Ela tinha a mais absoluta certeza.

Jéssica A.

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