Você já parou para pensar em todas as centenas de milhares de vezes em que você odiou sua mãe por um motivo absolutamente banal? Você já parou para pensar no quanto esse ódio, por mais momentâneo que seja, ainda que não chegue a durar mais que um minuto, é egoísta da sua parte? Bem, eu já.
Eu me lembro de todas as vezes em que senti raiva quando ela me disse 'não'. Ela dizia 'não' quando eu lhe pedia para sair com os meus amigos para certos lugares, quando eu pedia para continuar na internet por mais cinco minutinhos, quando eu lhe pedia para fazer um piercing ou uma tatuagem, para viajar sozinha, para sair com uma saia muito curta, para pintar o cabelo de uma cor extravagante, para comer doces antes das refeições.
E eu a odiei.
Ás vezes duravam apenas alguns segundos.
Ás vezes durava um dia inteiro.
Chegava a durar um mês.
Eu sentia raiva por achar que ela não se esforçava para me entender, por trabalhar demais e nunca ter tempo para mim, por querer se intrometer em minha privacidade, por tirar muitas vezes o meu direito de decisão, por ter sido muito dura ou muito exigente.
É muito fácil ser uma vítima, é muito fácil ver apenas pelo lado em que se está, aquele lado onde você está sempre certo.
Até que, um dia, eu decidi olhar pelo lado dela. Da minha mãe. Eu tive nojo de mim mesma.
Tentando compreender minha mãe, eu vi uma menina não muito mais velha do que eu e todas as coisas que ela perdeu a partir do momento em que ficou grávida de mim. Você já pensou como seria se, tendo plena consciência da sua juventude e em como seria maravilhoso aproveitá-la ao máximo, você escolhesse trocá-la pela maior responsabilidade que você jamais conheceu? Sim, pois a partir do momento em que se decide ter um filho, um turbilhão de responsabilidades nasce em sua vida e, a cada dia que se passa, fica cada vez maior e mais complexo. Você se torna o porto seguro de uma pessoa muito mais frágil que você, você não só tem que amadurecer, mas aprender a ser forte. Você tem plena consciência que aquele pequeno ser que está dentro de você vai crescer e vai ter centenas de necessidades. Essas necessidades vão além das roupas, alimentação e educação. Elas se estendem para as noites em claro que você irá passar acalentando um bebê que chora desesperadamente, as brigas que você terá com seu filho de sete anos que se recusa a fazer o dever de casa, as fantasias para as peças costuradas de última hora para a sua filha de dez (mesmo você tendo de ouvir que é a fantasia mais horrível de todas e a culpa é toda sua), as primeiras decepções, tão inocentes, postas para fora em um choro desesperado, onde você terá que abraçar o seu filho e fazê-lo entender que não há como viver sem se ferir, mas cada cicatriz resulta em amadurecimento.
Tantas vezes você sentiu raiva por sua mãe trabalhar demais e não ter tempo para você, mas nunca percebeu as olheiras em sua face, ou as madrugadas em que ela passou em claro no computador, só para que nunca faltasse comida na mesa de sua casa, para que você continuasse a estudar naquela escola, comprar aquele casaco e tênis novos que você estava precisando, ou te dar de natal aquele celular que você desejou como se fosse uma necessidade de 'vida ou morte'. Tantas vezes você reclamou quando ela lhe proibiu de sair com os amigos até que tirasse notas melhoras, mas nunca percebeu quanto tempo faz que ela não sai com as amigas dela. Por que você acha que isso acontece? Por que você acha que ela nunca tem tempo? Porque ela quer?
Muitas vezes passam anos até que você comece a compreender certas coisas. Algumas pessoas chegam a jamais compreender. De qualquer forma, quando acontece, você percebe o quanto se arrependeria se tivesse feito aquela tatuagem aos quinze anos, e que você jamais conseguiria o emprego legal que tem hoje se tivesse colocado aqueles piercings. Você vê nos noticiários sobre aquelas jovens garotas que foram machucadas e violentadas somente pelo fato de usarem roupas que chamassem a atenção, e suspira aliviada por não ter sido você. Percebe que aquele garoto realmente não era uma boa pessoa, você não precisava daquelas coisas, aquela amiga era mesmo falsa. Falando em amigos... Lembra os amigos para os quais você passou horas a falar da raiva que sentia de sua mãe? Aqueles pelos quais você passou semanas sem olhar pra cara dela por ela ter lhe proibido de sair com eles? Com quantos você ainda fala hoje? Quantos são realmente - mas realmente mesmo- importantes pra você? Qual deles você vê fazendo parte da sua vida daqui a dez anos anos? Qual deles daria a vida por você? Já lhe ocorreu quantas vezes você machucou e abandonou aquela pessoa que tem você como a coisa mais importante da vida dela por pessoas que você nem sabe se ficariam ao seu lado quando todos lhe virassem a cara?
Quem foi que lhe abraçou e lhe consolou em todas as 'maiores decepções da sua vida'? Quem foi que correu para o seu quarto quando você teve um pesadelo e ficou ao seu lado até que dormisse? Quem foi que sempre ligou para você durante o dia todo só para saber se você está bem? Quem é que lê livros de auto-ajuda, assiste documentários, está sempre perguntando, tentando saber como é ser da idade que você tem na época atual e, ainda assim, jamais contesta quando você a olha nos olhos e diz 'você não me entende e sequer tenta entender'. Quem foi que passou a madrugada inteira acordada esperando você chegar de uma festa, a quase morrer de preocupação ao pensar em todas as coisas ruins que poderiam lhe acontecer? Quem foi que lhe obrigou a estudar, pensando no seu futuro, aquele futuro que você sequer se importava? Quem foi que ficou horas ao seu lado quando você esteve doente, completamente propensa a pegar também a sua doença, quando todas as outras pessoas apenas ligavam para desejar 'melhoras'?
Foi ela. Sempre foi ela. E você ainda duvida que ela daria a vida por você. Ela já deu. E ela continua a se doar dia após dia.
Lembra daquele seu amigo que você machucou de tal forma que nunca mais se falaram? Lembra o quanto doeu em você saber que o havia machucado? É, mas você machucou. E ele foi embora. Mas aposto que você nunca machucou um amigo da forma que já machucou sua mãe. Ela teve que ouvir as suas palavras maldosas, ouvir que você a odiava, seus gritos, ver ódio em seus olhos. Ela viu você fazer pouco caso de coisas pelas quais ela teve de lutar arduamente para conseguir. Ela viu você planejar sair de casa aos dezoito anos por não aguentar mais ficar perto dela. Ela sentiu o seu desrespeito ao fugir da aula, voltar fora da hora marcada, experimentar coisas que você sabia que não eram boas, mentir, enganar, manipular. Pode ter certeza: ela percebeu e sentiu cada uma dessas coisas que você fez a ela. Só que você nunca percebeu o quão inabalável foi o amor dessa mulher, que te desculpou silenciosamente centenas de vezes sem nunca lhe jogar na cara nada do que você já tenha feito. Ela soube ver só coisas boas em você, mesmo quando até você sabia que as ruins estavam pesando mais. Ela continuou a acreditar em você quando ninguém mais a acreditava. Ela te abraçou enquanto você a empurrava. Ela esperou por você com o coração na mão quando você 'saiu de casa para não ter de olhar pra cara dela por algumas horas' e sorriu ao ver que você chegou vivo em casa. Ela chorou durante noites inteiras quando você disse que a odiava e conseguiu agir como se estivesse tudo bem a cada vez que você se aproximava. Ela escondeu de você cada um dos problemas que teve somente para continuar sendo o seu porto seguro. E, você pode ter certeza, ainda que você se torna a mais horrível e egoísta pessoa do mundo, quando todas as pessoas se afastarem de você, ela ainda estará lá. Ela te amará da mesma forma, ela ainda acreditará em você e saberá ver somente as coisas boas que você é. Sabe por que,meu caro? Por que ela te ama. Ela te ama muito mais do que você consegue compreender.
Colocando-me no lugar dela, eu comecei a compreender esse tipo de coisa. Eu passei a entender cada 'não', cada bronca, exigência e implicância. Eu nunca imaginei que uma pessoa pudesse ser tão incrível como ela é. E nunca imaginei que fosse tão egoísta. Eu me senti a pessoa mais egoísta do mundo. E o mais incrível é que, ainda assim, ela consegue me amar incondicionalmente.
Jéssica A.