Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac.
Ela parou a bicicleta perto daquela árvore porque ela sabia que quando começavam as árvores era porque ela já havia chegado longe o suficiente. Já haviam dito-lhe de novo e de novo que se ela andasse mais, um pouco mais, e entrasse na escuridão causada pela sombra daqueles carvalhos, ela nunca mais conseguiria voltar para casa. Mas naquele dia, as folhas estavam especialmente mais bonitas.Tão bonitas. Era uma mistura de verde, vermelho, e amarelo, e isso indicava que provavelmente era outono, ao menos ela aprendera na escola.
Estava entardecendo, mas entre os galhos dava para ver-se feixes de luz que iluminavam tudo ali. E onde estava a tal escuridão? Aquele cheiro de grama e de terra, misturado com o vento forte que fazia os seus cabelos de ouro esvoaçarem dava uma sensação tão boa que ela poderia passar o resto da vida parada ali e teria sido como se tivessem passado apenas alguns minutos.
Uma gotícula de água vinda sabe-se-lá de onde caiu na ponta do seu nariz, fazendo-a arrepiar e recuar antes de olhar para cima.
_ É uma árvore. É só uma árvore. O que é que pode fazer comigo? Prender-me aqui para sempre? - ela disse, rindo gostosamente de uma forma que há muito não ria. Então ela percebeu que gostava mas das árvores do que das pessoas. Porque quando ela estava com as pessoas ela só pensava em fugir para longe, para o lugar mais distante possível. No meio das árvores ela era livre e era quem ela queria ser. E daí que fosse uma realidade criada? Era uma realidade perfeita. Por exemplo, quando ela andava de bicicleta e sentia o vento bater violentamente conta o seu rosto,percebia o rosto das pessoas e todas as feições das coisas irem desaparecendo até que não se distinguissem mais umas das outras (eram só borrões - que mal um borrão pode fazer?), ela poderia imaginar que estava voando. E quando ela voava, era ela quem criava as próprias regras, era ela a senhora do tempo, e ela que decidia o que era real do que não era. As núvens são reais,as casas não. O céu é real,os carros não. Não importava mais o que lhe disseram, um dia, que fazia sentido. Importava somente o que fazia sentido para ela.
E depois,tic-tac, tic-tac, o tempo passava. E ela tinha que voltar para casa antes que percebessem sua ausência. E ela tinha que fingir que acreditava em todas aquelas coisas que materializavam-se novamente em sua frente. E o silêncio apagava o vulcão pelo tempo que fosse possível.
Tic-tac. O tempo deveria estar passando,porque já estava escurecendo. Então aquela era a floresta assustadora? Ela ria ao pensar nisso. Ela ria e projeteva a cabeça para traz,deixando que o vento levasse os seus cabelos na direção que ele deveria seguir. Porque o vento é livre. Então era o vento quem deveria comandar as coisas. E se ela imaginasse que estivesse tornando-se leve,bem leve, o vento poderia levá-la tembém. E então finalmente ela foi levada em direção á floresta escura. E ela sabia que a partir daquele momento, por pura e total responsabilidade dela, ela nunca mais poderia voltar para casa. Mas agora isso já não parecia tão assustador.
'Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.'
(C.Lispector)
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