
Ele somente era um homem, como qualquer outro. Ela somente era uma mulher, como qualquer outra. Os dias nasciam da mesma forma. Qualquer perfume de flor, cor de céu, formato de nuvem, não remetia a nada além do óbvio. Assim como todos aqueles homens e mulheres bem vestidos, andando a passos apertados nas ruas, na busca de crescimento profissional, satisfação, coragem para nunca desistir de seguir em frente. Assim como centenas de outras pessoas, ele gostava de desenhar, e fazia isso aos finais de tarde, observando uma paisagem monótona qualquer da janela do seu apartamento, enquanto o trabalho acumulado para o dia seguinte o observava da escrivaninha.
Ela escrevia sobre realidades alternativas, sabia transformar dor em poesia, tinha alguns textos publicados em um jornal bobo e pouco conhecido da cidade, assim como as centenas de outras aspirantes a jornalista.
Ela dividia o apartamento com uma amiga com quem não se dava muito bem, o que era absolutamente comum. Quando garoto, ele, assim como muitos outros garotos, saiu de casa rumo á independência aos dezoito anos de idade. Mas já fazia dez anos. Já nem era mais tão amedrontador. Ainda assim, cada dia parece uma conquista, não é?
Ela morria de medo de voar de avião, de aranhas e pesadelos. E quem é que não tem medo desse tipo de coisa? Ele só tinha medo de perder as esperanças, de que sua noção de realidade crescesse a ponto de se sobrepor aos seus sonhos.
Ele adorava passar horas na cozinha a criar receitas novas. Lia manuais práticos de inovações gastronômicas e tentava compilar várias receitas em uma só. Sempre fazia mais comida que o necessário, o que lhe propiciava vários dias sem ter de se preocupar com o jantar. Ela sempre fora adepta a tudo que fosse rápido. Microondas, comida pronta, fast-food e restaurante.
Não importa quanto tempo eu passe especulando sobre a essência daquele homem e daquela mulher. Seria irrelevante. Nada mudaria o fato de que eles eram simplesmente comuns. Como qualquer outra pessoa. Com sonhos, gostos e defeitos naturalmente parecidos com grande parte daqueles que tinham por perto. Nada havia que os tornasse mais especiais do que os seus semelhantes.
Porém aconteceu de, numa manhã qualquer, caminhando por uma rua qualquer, a caminho de mais um dia de trabalho, os olhos daquele homem e daquela mulher se cruzarem. Nenhuma palavra foi dita, nenhum tipo de reação ou movimento de escusa se partiu dali. Somente um brilho nos olhos mais poderoso do que qualquer tipo de força que eles conheciam até aquele momento. As pessoas, apressadas, não perceberam a plenitude do que se passava. Eles próprios não entenderam naquele primeiro momento. Apenas sentiram.
O convite para o café partiu dele, como um ato de coragem de tamanha grandeza que deveria ser reconhecido com um premio Nobel. Na sua concepção, ao menos. A afirmação com a cabeça, a pequena mudança naquele dia comum de trabalho, o pensamento de que não faria mal algum se atrasar um pouquinho, partiu dela pouco depois.
Ele lhe contou sobre seus gostos, sonhos, receios e rotina, e a ela pareceu tão incrível que ele não somente era só mais um a fazer aquelas coisas. Ele tinha sua própria forma e era especial, era única, ao menos aos olhos dela. Era o suficiente, não era? Ele a colocou num pedestal de tamanha magnitude, que ela já não era mais aquela aspirante à jornalista, mas a maior das promessas já existentes no mundo literário.
Ela silenciosamente tomou a decisão de faltar ao trabalho só aquele dia. Que problema havia? Depois poderia dizer que estava doente ou dar alguma desculpa do tipo. Ele avisou que iria ao banheiro e, de lá, ligou para o patrão dizendo que havia certo imprevisto que o impediria de ir trabalhar. Ele voltou com um sorriso e, sem dizer mais uma palavra sequer, sem a urgência de uma decisão a ser tomada, sem a exigência de qualquer tipo de explicação, tomou-a pela mão e fez com que caminhassem algumas quadras até o solitário apartamento onde morava.
Ela tomou da mesa um dos desenhos que ele fizera na noite anterior e os seus olhos brilharam de admiração, levando os dele a reluzirem de paixão. Ela caminhou até ele e puxou a sua nuca até que seu rosto ficasse suficientemente perto do dela. Não havia nenhuma palavra a ser dita. Palavras são inúteis. Os olhos dizem tudo o que se precisa saber. O corpo diz exatamente como se deve agir. O resto é desnecessário.
Os dedos dele percorreram a mesa até que se pudesse clicar em um botão que originou uma melodia de Vivaldi que nunca mais lembraria outra pessoa senão ele a ela e ela a ele. O aroma de lavanda que dançava ao entrar pelas cortinas nunca mais lembraria outra coisa senão àquele dia.
Ela soltou um suspiro enquanto a boca dele lhe percorria os lábios, face e nuca. Ele nem percebeu o quão rápido os botões de sua camisa iam se desfazendo, até que ela deslizasse delicadamente por sua pele. Nem um tipo de pensamento passava pela cabeça daquele homem e daquela mulher que, abandonado tudo aquilo que os prendia, se arrastaram até a cama tentando encontrar a melhor posição para se amarem. Nada mais havia naquele quarto senão sussurros, suspiros, gemidos e batidas aceleradas de corações. Nada mais havia naqueles corpos senão desejo, entrega e carinho. E não era qualquer desejo. Era daquele tipo raro, que chega como um furacão e é capaz de derrubar qualquer coisa que queira se impor em sua frente. Nenhuma cordialidade, vergonha ou medo é capaz de tirar-lhe a força.
As mãos dele percorriam o corpo dela com a mesma urgência que uma criança tem ao desejar aqueles doces da vitrine. Os seus corpos se movimentavam ao passo de que, ao poucos, até as batidas de coração entravam em sintonia. Não era mais um só um homem. Não era mais uma só mulher. Não eram sequer duas pessoas diferentes. Eram um só. Um só corpo, alma e essência. Era um ser grandioso a ponto de poder, sim, sobrepor-se a qualquer uma daquelas pessoas comuns que caminhavam apressadas do lado de fora. Tornavam-se tudo o que nunca foi passível de se fazer sentindo. Tudo o que nunca foi possível de se explicar ou quantificar.
Eles entraram, juntos, em um êxtase que os levou a sair da Terra por longos e inesquecíveis segundos. Êxtase que se repetiu, porém de forma mais calma, assim que os seus corpos pararam de se movimentar e ela se deitou nos braços dele. Os seus olhos se cruzaram novamente e, como da primeira vez, a única reação que pôde existir foram dois sorrisos. Mas eles sabiam que já não eram mais as mesmas pessoas que foram antes daquele encontro inesperado. Agora eles eram únicos. Aquilo era somente deles e, ainda que ninguém pudesse compreender a grandeza, eles sabiam. Era mais do que o suficiente.
Eles haviam finalmente compreendido que sentir-se completo não necessita de sucesso no trabalho ou de uma autossufiência excessiva. Necessita apenas da simples e grandiosa habilidade de saber ver no outro aquilo que é capaz de te tornar completo.
Jéssica A.











