quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um só



Tumblr_lmntneik8b1qhm25wo1_500_large



Ele somente era um homem, como qualquer outro. Ela somente era uma mulher, como qualquer outra. Os dias nasciam da mesma forma. Qualquer perfume de flor, cor de céu, formato de nuvem, não remetia a nada além do óbvio. Assim como todos aqueles homens e mulheres bem vestidos, andando a passos apertados nas ruas, na busca de crescimento profissional, satisfação, coragem para nunca desistir de seguir em frente. Assim como centenas de outras pessoas, ele gostava de desenhar, e fazia isso aos finais de tarde, observando uma paisagem monótona qualquer da janela do seu apartamento, enquanto o trabalho acumulado para o dia seguinte o observava da escrivaninha.

Ela escrevia sobre realidades alternativas, sabia transformar dor em poesia, tinha alguns textos publicados em um jornal bobo e pouco conhecido da cidade, assim como as centenas de outras aspirantes a jornalista.

Ela dividia o apartamento com uma amiga com quem não se dava muito bem, o que era absolutamente comum. Quando garoto, ele, assim como muitos outros garotos, saiu de casa rumo á independência aos dezoito anos de idade. Mas já fazia dez anos. Já nem era mais tão amedrontador. Ainda assim, cada dia parece uma conquista, não é?

Ela morria de medo de voar de avião, de aranhas e  pesadelos. E quem é que não tem medo desse tipo de coisa? Ele só tinha medo de perder as esperanças, de que sua noção de realidade crescesse a ponto de se sobrepor aos seus sonhos.

Ele adorava passar horas na cozinha a criar receitas novas. Lia manuais práticos de inovações gastronômicas e tentava compilar várias receitas em uma só. Sempre fazia mais comida que o necessário, o que lhe propiciava vários dias sem ter de se preocupar com o jantar. Ela sempre fora adepta a tudo que fosse rápido. Microondas, comida pronta, fast-food e restaurante.

Não importa quanto tempo eu passe especulando sobre a essência daquele homem e daquela mulher. Seria irrelevante. Nada mudaria o fato de que eles eram simplesmente comuns. Como qualquer outra pessoa. Com sonhos, gostos e defeitos naturalmente parecidos com grande parte daqueles que tinham por perto. Nada havia que os tornasse mais especiais do que os seus semelhantes.

Porém aconteceu de, numa manhã qualquer, caminhando por uma rua qualquer, a caminho de mais um dia de trabalho, os olhos daquele homem e daquela mulher se cruzarem. Nenhuma palavra foi dita, nenhum tipo de reação ou movimento de escusa se partiu dali. Somente um brilho nos olhos mais poderoso do que qualquer tipo de força que eles conheciam até aquele momento. As pessoas, apressadas, não perceberam a plenitude do que se passava. Eles próprios não entenderam naquele primeiro momento. Apenas sentiram.

O convite para o café partiu dele, como um ato de coragem de tamanha grandeza que deveria ser reconhecido com um premio Nobel. Na sua concepção, ao menos. A afirmação com a cabeça, a pequena mudança naquele dia comum de trabalho, o pensamento de que não faria mal algum se atrasar um pouquinho, partiu dela pouco depois.

Ele lhe contou sobre seus gostos, sonhos, receios e rotina, e a ela pareceu tão incrível que ele não somente era só mais um a fazer aquelas coisas. Ele tinha sua própria forma e era especial, era única, ao menos aos olhos dela. Era o suficiente, não era? Ele a colocou num pedestal de tamanha magnitude, que ela já não era mais aquela aspirante à jornalista, mas a maior das promessas já existentes no mundo literário.

Ela silenciosamente tomou a decisão de faltar ao trabalho só aquele dia. Que problema havia? Depois poderia dizer que estava doente ou dar alguma desculpa do tipo. Ele avisou que iria ao banheiro e, de lá, ligou para o patrão dizendo que havia certo imprevisto que o impediria de ir trabalhar. Ele voltou com um sorriso e, sem dizer mais uma palavra sequer, sem a urgência de uma decisão a ser tomada, sem a exigência de qualquer tipo de explicação, tomou-a pela mão e fez com que caminhassem algumas quadras até o solitário apartamento onde morava.

Ela tomou da mesa um dos desenhos que ele fizera na noite anterior e os seus olhos brilharam de admiração, levando os dele a reluzirem de paixão. Ela caminhou até ele e puxou a sua nuca até que seu rosto ficasse suficientemente perto do dela. Não havia nenhuma palavra a ser dita. Palavras são inúteis. Os olhos dizem tudo o que se precisa saber. O corpo diz exatamente como se deve agir. O resto é desnecessário.

Os dedos dele percorreram a mesa até que se pudesse clicar em um botão que originou uma melodia de Vivaldi que nunca mais lembraria outra pessoa senão ele a ela e ela a ele. O aroma de lavanda que dançava ao entrar pelas cortinas nunca mais lembraria outra coisa senão àquele dia.

Ela soltou um suspiro enquanto a boca dele lhe percorria os lábios, face e nuca. Ele nem percebeu o quão rápido os botões de sua camisa iam se desfazendo, até que ela deslizasse delicadamente por sua pele. Nem um tipo de pensamento passava pela cabeça daquele homem e daquela mulher que, abandonado tudo aquilo que os prendia, se arrastaram até a cama tentando encontrar a melhor posição para se amarem. Nada mais havia naquele quarto senão sussurros, suspiros, gemidos e batidas aceleradas de corações. Nada mais havia naqueles corpos senão desejo, entrega e carinho. E não era qualquer desejo. Era daquele tipo raro, que chega como um furacão e é capaz de derrubar qualquer coisa que queira se impor em sua frente. Nenhuma cordialidade, vergonha ou medo é capaz de tirar-lhe a força.

As mãos dele percorriam o corpo dela com a mesma urgência que uma criança tem ao desejar aqueles doces da vitrine. Os seus corpos se movimentavam ao passo de que, ao poucos, até as batidas de coração entravam em sintonia. Não era mais um só um homem. Não era mais uma só mulher. Não eram sequer duas pessoas diferentes. Eram um só. Um só corpo, alma e essência. Era um ser grandioso a ponto de poder, sim, sobrepor-se a qualquer uma daquelas pessoas comuns que caminhavam apressadas do lado de fora. Tornavam-se tudo o que nunca foi passível de se fazer sentindo. Tudo o que nunca foi possível de se explicar ou quantificar.

Eles entraram, juntos, em um êxtase que os levou a sair da Terra por longos e inesquecíveis segundos. Êxtase que se repetiu, porém de forma mais calma, assim que os seus corpos pararam de se movimentar e ela se deitou nos braços dele. Os seus olhos se cruzaram novamente e, como da primeira vez, a única reação que pôde existir foram dois sorrisos. Mas eles sabiam que já não eram mais as mesmas pessoas que foram antes daquele encontro inesperado. Agora eles eram únicos. Aquilo era somente deles e, ainda que ninguém pudesse compreender a grandeza, eles sabiam. Era mais do que o suficiente.

Eles haviam finalmente compreendido que sentir-se completo não necessita de sucesso no trabalho ou de uma autossufiência excessiva. Necessita apenas da simples e grandiosa habilidade de saber ver no outro aquilo que é capaz de te tornar completo.

Jéssica A.

Esperança?





















"Eu vejo a vida melhor no futuro. Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia que insiste em nos rodear...
Eu vejo a vida mais clara e farta,repleta de toda satisfação que se tem direito do firmamento ao chão...
Eu quero crer no amor numa boa, que isso valha pra qualquer pessoa que realizar, a força que tem uma paixão...
Eu vejo um novo começo de era de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não, não, não...
Hoje o tempo voa amor. Escorre pelas mãos. Mesmo sem se sentir.
Não há tempo que volte amor. Vamos viver tudo que há pra viver.
Vamos nos permitir..."

(Lulu Santos)

domingo, 12 de junho de 2011

Amor e medo

Porque eu me apaixonei por este poema desde a primeira vez em que o ouvi numa certa aula de literatura por um certo professor que tinha um jeito incrível de ler poemas. *-*


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
- "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo...
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.
É que esse vento que na várzea - ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: - que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos - palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...
Diz: - que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca - sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril delírio,
- Olhos pisados - como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...
Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo!...

Pânico Interior

Em caso de pânico interior, feche os olhos, respire fundo, e pense em alguma coisa bem diferente daquilo que está vivendo.
Paulo Baleki

Ser diferente

Diferente não é quem pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não
foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado de alguns mais e de alguns menos em hora,
momento e lugar errados para os outros. Que riem de inveja de não serem
assim. E de medo de não agüentar, caso um dia venham, a ser. O diferente é
um ser sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos
sensíveis e avisadas. Supondo encontrar um chato onde está um diferente,
talentos são rechaçados; vitórias, adiadas; esperanças, mortas. Um diferente
medroso, este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente
que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes percebem porque os outros não os
entendem. Os diferentes raivosos acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo
inteiro. Diferente que se preza entende o porque de quem o agride. Se o
diferente se mediocrizar, mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando
algo, ameaçando rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere
a ira do irremediavelmente igual: a inveja do comum; o ódio do mediano. O
verdadeiro diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo, já no primário, onde os demais de mãos
dadas, e até mesmo alguns adultos por omissão, se unem para transformar o
que é peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção
aguçada em : "Puxa, fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um
estilo próprio em : "Você não está vendo como todo mundo faz? "

O diferente carrega desde cedo apelidos e marcações os quais acaba
incorporando. Só os diferentes mais fortes do que o mundo se transformaram
( e se transformam) nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo
dos demais começarem a perceber. Diferente é o que se emociona enquanto
todos em torno agridem e gargalham. É o que engorda mais um pouco; chora
onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem. Sonha entre realistas. Concretiza entre
sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados. Cria onde o hábito
rotiniza. Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que
ninguém supõe. Perde horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda
onde não deve. Diz sempre na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não
desiste de lutar pela harmonia. Fala de amor no meio da guerra. Deixa o
adversário fazer o gol, porque gosta mais de jogar do que de ganhar. Ele
aprendeu a superar riso, deboche, escárnio, e consciência dolorosa de que a
média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão: enfermos, paralíticos, machucados, engordados,
magros demais, inteligentes em excesso, bons demais para aquele cargo,
excepcionais, narigudos, barrigudos, joelhudos, de pé grande, de roupas
erradas, cheios de espinhas, de mumunha, de malícia ou de baba. Aí estão,
doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.

A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas
deslumbrantes que eles guardam para os pouco capazes de os sentir entender.
Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são
capazes.

Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja
suficientemente forte para suporta-lo depois."
Arthur da Távola

Olhos nos olhos.



E, de repente lá estamos nós.
Olhos nos olhos.
E não há mais nenhum tipo de proteção para nossas peles.
Nós não somos mais dois estranhos.
Eu percebo o quanto eu sentia falta disso.
Não dói tanto quando você se acostuma a não ter.
Mas quanto tempo durará dessa vez?
Olhos nos olhos.
Eu sei quando você pode ver a minha alma.
Eu sinto isso.
Então eu já não me sinto totalmente nua.
Eu gosto que você veja.
Eu posso ver você também.
E é lindo o que eu vejo.
Eu poderia passar o resto da noite olhando para sua alma.
Nós poderíamos fingir que é possível ficar assim para sempre.
Que não existe nada forte o suficiente para nos tirar deste momento.
Mas não seria verdade...seria?
Eu gosto das coisas bobas, não importa o quão bobas elas sejam.
Eu gosto das palavras não ditas.
Gosto dos gestos insignificantes.
É um tipo de estado em que nada mais importa.
Os erros, os defeitos, cada uma das decepções.
Não nesse momento.
E não importa os medos que nós tínhamos.
Eles não parecem tão assustadores agora. Parecem?
E tudo o que eu penso em dizer é: eu senti sua falta.
Ainda que eu saiba na ponta da língua a sua resposta.
Você diria: Nós nos vemos todos os dias.
Por que fala como se houvessem meses?
Bem, eu senti tua falta.
É que a frieza dos papeis, do conveniente, do que é rotina me assustam.
Me assusta quando você me olha nos olhos e não me vê.
É por isso que você não conseguia encará-los?
E , então, quando todas as paredes caem, eu percebo que nada mudou.
Você ainda é o mesmo.
Eu ainda sou a mesma.
Mesmo depois de tanto tempo.
De tantas coisas.
Você não se sente bem melhor assim?
Achou mesmo que fosse impossível não pensar? Não se preocupar?
Não parece um sonho agora que você está aqui?
Eu amo tanto poder estar contigo que eu sinto vontade de chorar.
Não adianta dizer que mudou.
Não mudou.
Será sempre você.
Eu te amarei pra sempre.
Não importa.
Nada.
Eu juro.

Jéssica A.

Faz de conta


Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando.

(Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

Universo de Ausências



Eu acho a letra dessa música brilhante, assim como muitas que gosto do Eminem.
O clipe ficou ótimo, bem no contexto e bem representado pelos atores Megan Fox e Dominic Monaghan.
Isso me inspirou a fazer esse texto.
Na música só consta o ponto de vista do homem. A idéia do texto é a representação do ponto de vista da mulher.
Clipe:
http://www.youtube.com/watch?v=b_HwOLdJhZc

Aquele universo era só dela e existia só para ela. Porque ele dormia. Mas ela não dormia nunca. Os olhos se acostumam rápido com o escuro do quarto e em questão de segundos já lhe era possível ver aquela silhueta do corpo masculino. Relaxado, de bruços,tão quieto que movimentava-se apenas no inspirar e no expirar. E desprovido de qualquer tipo de roupa. As noites eram sempre calmas, mas fazia um frio tão insuportável que era surpreendente que alguém conseguisse dormir. Mas era o que ele fazia. Era o que ele fazia todas as noite depois que eles se amavam.

Incrível como ele poderia parecer tão puro e inofensivo quando dormia. - Como um garotinho...! - ela sorria, enquanto tocava sua nuca, as curvas de suas costas com todo o cuidado, com a ponta dos dedos,para que ele não acordasse. Ah, como se precisasse! Ele transforamava-se numa criatura imóvel e quase que sem vida a partir do momento em que fechavam os olhos e, não importava o que ela dissesse ou fizesse, ele não acordava. Sequer parecia o homem que era quando estava acordado.

Quando ele dormia, ela sentia-se só. Quando ambos estavam acordados ela sentia-se presa e infeliz. Então o único momentos que lhes restava era aquela que vinha antes da solidão. Quando eles se amavam. Era quando ela podia acreditar. Entregar-se de corpo, mente, alma, entregar-se de todas as formas possíveis. Era quando ela mais o amava, porque ela podia demonstrar isso. E quem visse e ouvisse todos os afagos, os toques,suspiros, sussurros, gemidos,não teria uma dúvida sequer do amor que eles sentiam um pelo outro. E nessa hora eles se davam bem - maravilhosamente bem.

Quando foi que começaram todas as mentiras? Quando foi que toda aquela grandiosidade tornou-se tão lamentávelmente melancólica? Ela não se lembrava. Ela não queria se lembrar. Ela se lembrava de outras coisas muito mais bonitas,muito mais felizes, como o jeito em que ele olhou para ela na primeira vez que a viu. O vestido azul e florido. A tiara no cabelo. Ela tinha apenas treze anos. E ele era um homem. O homem. O seu homem. O primeiro que fez com que seus olhos brilhassem daquele jeito diferente e que lhe ensinaria, mais tarde, coisas que ela sequer sonhava em aprender. Uma delas foi amar. Amar com toda a pureza e com toda a intensidade que lhe era possível. E ela poderia passar dias e dias na tentativa de explicar como era a sensação. Mas a verdade era que não existiam palavras. E ela duvida que outra pessoa no mundo já houvesse sentido, alguma vez, todas aquelas coisas que ela conseguia sentir.

E agora ele ensinava mais. E ela aprendia como uma garotinha obediente, ainda que não gostasse. Ele lhe ensinava a sentir dor, a não conseguir confiar nas pessoas, a permanecer em silêncio quando a maior vontade era gritar, gritar para ver se a dor ia embora. Ele sempre prometera que a protegeria de qualquer coisa que lhe fizesse mal. Mas será que ele era capaz de protegê-la dele mesmo?

Quando ele mentia, quando ele negava, quando ele a fazia sofrer, era como se não adiantasse nenhum tipo de conversa. Era como se ele houvesse tornado-se insensível ás suas lágrimas, e gritar com ela fizesse ficar tudo bem. E aparentemente ficava.
Mas com o silêncio, ela guardava tudo dentro de si. E não fazia idéia de quanto tempo os sentimentos confusos poderiam ficar guardados dentro dela até que tudo explodisse de vez.
As mãos dele, antes tão cuidadosas ao tocá-la, agora seguravam-a firme, as unhas cravavam-se a ponto de machucarem de verdade. Agora a violência não era mais tão rara. Não era como um dia ruim que logo passaria. Era pior, muito pior que isso. Era um pesadelo do qual ela nunca acordava.

Existe um momento. É claro que existe um momento em que tudo começa. Em que você avalia " Eu posso fazer isso,eu posso agir descontroladamente ou eu posso resistir e não machucá-la". Ela não sabia quando havia sido esse momento dele, mas sabia que ele havia existido e faria qualquer coisa para saber o que havia feito de errado para que ele houvesse feito a pior escolha. Alguma coisa que disse? Alguma coisa que fez? Tudo o que ela se lembrava era de ter feito tudo para que o amor dos dois existisse para sempre. Então por que é que estava acontecendo?

E ainda assim há aquela força que é como uma rede que a puxa, que a segura perto dele, que não a deixa ir embora nunca. Uma força muito maior do que a dele. O que você sente por uma pessoa pode ter um poder incrível sobre o que você é. Talvez fosse uma esperança que ficava lá no fundo de que o tempo poderia voltar e tudo seria como antes. Que fosse apenas uma fase ruim, que ele mudaria, ele tinha que mudar. Afinal ela se apaixonara pelo que ele era. Se apaixonara perdidamente. E agora ela ficava ali, no escuro, tentando ver se alguma daquelas características que a atraiu ainda estava viva nele. Ao olhar no rosto dele quando em profundo sono ela podia se lembrar de algumas coisas. De como ele era calmo e pacífico. De como tudo sempre ficava bem quando ele estava por perto. De como como ela se sentia protegida.

Mas tudo mudou. E ela se obrigava a perceber que um passado perfeito jamais poderia se sobrepor a um presente doloroso. Mas não conseguia. Então ela permaneceria naquela prisão para sempre?

Quandi a toca, ele a machuca;
Quando a beija,ele a machuca;
Quando ele grita, faz com que ela sinta uma dor muito pior do que a física. Isso a mata. E ninguém faz idéia de como é morrer todos os dias. Ela sabe que precisa tentar fugir, e tenta, antes que seja tarde, mas ele implora,suplica por perdão. - Não haverá próxima vez, eu juro, não haverá! - Mas ela sabe que ele é absolutamente capaz até de matá-la. Porém o amor que ainda corre em suas veias, ainda que doentio, faz-se muito mais forte do que o medo, a dor, a vontade de viver novamente. É como se ela gostasse da forma como machuca, porque se continua a doer significa que ele está perto. E, principalmente, significa que ela ainda sente algo. O torpor ainda não tomou-a por completo.
Até quando?

Jéssica A.

Liberdade



Tic Tac, Tic Tac, Tic Tac.

Ela parou a bicicleta perto daquela árvore porque ela sabia que quando começavam as árvores era porque ela já havia chegado longe o suficiente. Já haviam dito-lhe de novo e de novo que se ela andasse mais, um pouco mais, e entrasse na escuridão causada pela sombra daqueles carvalhos, ela nunca mais conseguiria voltar para casa. Mas naquele dia, as folhas estavam especialmente mais bonitas.Tão bonitas. Era uma mistura de verde, vermelho, e amarelo, e isso indicava que provavelmente era outono, ao menos ela aprendera na escola.

Estava entardecendo, mas entre os galhos dava para ver-se feixes de luz que iluminavam tudo ali. E onde estava a tal escuridão? Aquele cheiro de grama e de terra, misturado com o vento forte que fazia os seus cabelos de ouro esvoaçarem dava uma sensação tão boa que ela poderia passar o resto da vida parada ali e teria sido como se tivessem passado apenas alguns minutos.
Uma gotícula de água vinda sabe-se-lá de onde caiu na ponta do seu nariz, fazendo-a arrepiar e recuar antes de olhar para cima.

_ É uma árvore. É só uma árvore. O que é que pode fazer comigo? Prender-me aqui para sempre? - ela disse, rindo gostosamente de uma forma que há muito não ria. Então ela percebeu que gostava mas das árvores do que das pessoas. Porque quando ela estava com as pessoas ela só pensava em fugir para longe, para o lugar mais distante possível. No meio das árvores ela era livre e era quem ela queria ser. E daí que fosse uma realidade criada? Era uma realidade perfeita. Por exemplo, quando ela andava de bicicleta e sentia o vento bater violentamente conta o seu rosto,percebia o rosto das pessoas e todas as feições das coisas irem desaparecendo até que não se distinguissem mais umas das outras (eram só borrões - que mal um borrão pode fazer?), ela poderia imaginar que estava voando. E quando ela voava, era ela quem criava as próprias regras, era ela a senhora do tempo, e ela que decidia o que era real do que não era. As núvens são reais,as casas não. O céu é real,os carros não. Não importava mais o que lhe disseram, um dia, que fazia sentido. Importava somente o que fazia sentido para ela.

E depois,tic-tac, tic-tac, o tempo passava. E ela tinha que voltar para casa antes que percebessem sua ausência. E ela tinha que fingir que acreditava em todas aquelas coisas que materializavam-se novamente em sua frente. E o silêncio apagava o vulcão pelo tempo que fosse possível.
Tic-tac. O tempo deveria estar passando,porque já estava escurecendo. Então aquela era a floresta assustadora? Ela ria ao pensar nisso. Ela ria e projeteva a cabeça para traz,deixando que o vento levasse os seus cabelos na direção que ele deveria seguir. Porque o vento é livre. Então era o vento quem deveria comandar as coisas. E se ela imaginasse que estivesse tornando-se leve,bem leve, o vento poderia levá-la tembém. E então finalmente ela foi levada em direção á floresta escura. E ela sabia que a partir daquele momento, por pura e total responsabilidade dela, ela nunca mais poderia voltar para casa. Mas agora isso já não parecia tão assustador.

Jéssica A.


'Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.'
(C.Lispector)

Paixão Platônica

















No momento em que arrumava as malas para a Universidade ela lembrava de tudo o que viveu naquela escola perto de sua casa. Agora ela passaria cincos longos anos sem vê-la. Tudo o que viveu, viu ou sentiu naquela lugar fariam parte somente de uma lembrança que seria apagada aos poucos. Mas havia a lembrança de um dia em especial que ela sabia que jamais se esqueceria. Era só fechar os olhos e as imagens se tornavam nítidas. Os sentimentos confusos dançavam em sua mente feito bailarinas movimentando-se cada uma em um ritmo diferente, perdendo o compasso, caindo,confundindo-se.

Ela se lembrava de como o dia havia amanhecido claro, trazendo á tona um sentimento de esperança que há muito havia ficado esquecido, jogado em um canto. Em cada dia daqueles três anos que se passaram,eles trocavam olhares tão intensos que a fazia arrepiar. A sorte é que ela podia fazer isso por incontáveis minutos sem fazer parecer estranho. Era só fingir que prestava atenção em alguma das coisas que ele dizia. Ela até tentava, Deus, como tentava. Mas no segundo seguinte já estava imersa em pensamentos, criava histórias e situações tão absurdamente maravilhosas que a faziam sorrir feito boba.

O sentimento de esperança havia se fundido com o de coragem quando ela, decidida, apertou o caderno contra o peito e desceu por aquela escadaria que parecia mais interminável que o habitual. O tom de voz e as palavras que ele usou eram repetidos incansavelmente em sua cabeça. "Você pode me encontrar lá embaixo na hora do recreio?" Seus lábios tremeram num êxtase tão grande que ela sequer conseguiu responder. Então ela fez com a cabeça, abaixando-a e levantando-a sutilmente.

O medo de que ele não se lembrasse foi absolutamente desnecessário. Ela nem sabia mais o que era medo, quando chegou á ultima escada e o viu esperando por ela naquele banquinho. Aqueles outros alunos, conversando, rindo, brincando, alheios a qualquer coisa que pudesse ser importante, sequer conseguiram perceber a concretização de uma paixão que estava prestes a acontecer.
_ Oi... - ela disse, sorrindo o maior sorriso que conseguiu. - O que você queria falar comigo?
_ Sente-se aqui por favor, querida. - ele deu uma batidinha no lugar ao seu lado. Ela olhou para os dois lados, desconfiada, e se sentou. - Abra o seu caderno naquela página da lição.

E então ele recomeçou aquele discurso que ela já se acostumara a ouvir. Ele falava e falava. Ela fixava os olhos nos dele, demonstrando muito mais do que interesse, uma verdadeira devoção, um aviso de que ele seria devorado caso não a decifrasse. Ele apoiava uma das mãos no espaço ao seu lado quando ela descruzou os braços e apoiou a dela perto, tão perto que seus dedos puderam se tocar. O contato. O primeiro contato deles resultou em eletricidade. A famosa eletricidade da qual ele tanto falava. Agora ela podia entender. Era tão forte que poderia matá-los ali mesmo.

Seu coração estava a mil. Ela mordeu os lábios e e piscou algumas vezes até ter a coragem de mover a mão um pouco mais. Só mais alguns centímetros. Alguns centímetros. Que mal poderia haver? Logo o toque com a pele dele era maior. E os efeitos ainda mais intensos. Ele parou subitamente de falar a olhou nos olhos dela. Nenhum deles disse nada. Todo o ambiente envolta desapareceu. Haviam somente os dois ali. A mão que ele tinha livre moveu-se lentamente em direção ao rosto dela, o qual ele acariciou como se fosse tão delicado quanto porcelana. Ela sorriu e avançou um pouco mais. Um beijo. Um beijo rápido e sem um estalido sequer. E recuou receiosa. Mas ele a puxou de volta e prendeu os seus corpos perto demais. Ela segurou sua nuca e o beijou com a urgência de quem espera aquilo por anos. E ele queria também. Ela tinha certeza disso. Ela sempre teve certeza. Os dois respiravam cada vez mais rápido. Ela seria capaz de arrancar suas roupas e amá-lo ali mesmo. No chão. Em pé. Na mesa. Não importava. Importava que fosse ele. As mãos dela agarraram forte a blusa dele quase que a arrancando. Bem que ela gostaria. Depois de escutar um gemido baixo sair da boca dele ela sorriu triunfante. Ela a queria. A queria da mesma forma. Talvez, assim como acontecia com ela, ele a imaginasse durante as noites, quando deitava na cama a insônia tomava conta de todo o seu cansaço. Talvez ele pensasse no rosto dela no caminho para a escola. Talvez ele sussurrasse o nome dela baixinho enquanto dormia.
_ Você pertence a mim. - ela sorriu, segurando aquele belo rosto em suas mãos. Ela a pertencia, naquele momento, mais do que nunca.
_ Mellanie? Mellanie, você está prestando atenção? - ele perguntou. E naquela hora toda a claridade voltou. Os sons foram voltando aos poucos. A presença das dezenas de alunos á sua volta foi ficando mais nítida. Ela olhou assustada para ele, para seu rosto, sua blusa perfeitamente passada, suas mãos. Suas mãos...Apoiadas no banco, os dedos dele quase a tocar os dela. Mas só. - Mellanie?
_ Sim, professor?
_ Você entendeu o que eu acabei de explicar?
_ Sobre a eletricidade, né? - ela sorriu de forma encantadora. - Sim, professor. Eu entendi tudinho. Obrigada.
Ela levantou-se trêmula e voltou para a sala de aula. Seu coração ainda estava disparado, ela ainda sentia os efeitos que aquele momento com o professor provocava nela. Ela sabia que não podia contar a ninguém. Mas aquilo tinha sido real. Ela tinha a mais absoluta certeza.

Jéssica A.

Fragilidade


Eu poderia estar morta em um segundo. Tudo é tão ... frágil. Você não percebeu isso?
(Skins)

Ela me amedronta.

Ela me amedronta.
Com seu metro e sessenta de altura, ainda tendo de levantar o rosto para me fitar, eu me sinto como se ela estivesse infinitamente acima de mim.
A frieza da sua pele, alva demais, é tão intensa como um punhal de gelo que poderia adentrar a minha pele a ponto de fazer estragos.
Os seus cabelos vermelhos, quando ao vento, provocam chamas em qualquer coisa que estiver por perto. Logicamente, isso se aplica a mim. Eu mal tenho coragem de tocá-los. O sol deve morrer de inveja.
O seu rosto é um desenho com traços milimetricamente planejados para atrair a qualquer coisa viva que possa se mover. Transborda uma meninice capaz de derreter qualquer coração, mas quem se aproxima, se arrepende: é letal.
Seus olhos sempre foram o maior mistério para mim. O azul do céu parece sem graça demais perto dela. O seu olhar transmite astúcia. É expressivo e misterioso. É impossível saber o que se passa pela cabeça dela. Um simples olhar aprisiona você por tempo indeterminado. E acredite: não importa o quanto você tente, não é algo evitável.'
Sua voz possui tal sonoridade que, quando ela fala, parece uma música. E quando ela fala...Ah!...Quando ela fala eu já não sou o mesmo. Qualquer habilidade de fala e de locomoção fica sériamente comprometida.
Essa menina é o ser mais letal existente no mundo.
Ela não tem veneno, não tem garras e nenhum tipo de força absurdamente grande.
Mas só a imagem dela é capaz de roubar a sua alma.
E daí não tem mais volta.
O que mais me amedronta não é tão somente a extraordinariedade que compõe todo o seu ser.
Eu temo pelo fato de que ela parece gostar de mim.
Temo pela minha vida.
Pela minha alma.
E ainda assim não consigo deixar de pensar que é só um sonho e que, a qualquer momento, eu acordarei.
Porque não pode ser real.
Essas coisas não acontecem.



Jéssica A

Sobre corações quebrados



































_ Acho que deveríamos ficar juntos.
_ Não.
_ Por que não?
_ Porque eu quebraria seu coração.
_ Talvez eu quebrasse o seu.
_ Ninguém quebra meu coração. E, de qualquer forma, por que eu iria querer isso?
(Skins)

Mãe




















Você já parou para pensar em todas as centenas de milhares de vezes em que você odiou sua mãe por um motivo absolutamente banal? Você já parou para pensar no quanto esse ódio, por mais momentâneo que seja, ainda que não chegue a durar mais que um minuto, é egoísta da sua parte? Bem, eu já.

Eu me lembro de todas as vezes em que senti raiva quando ela me disse 'não'. Ela dizia 'não' quando eu lhe pedia para sair com os meus amigos para certos lugares, quando eu pedia para continuar na internet por mais cinco minutinhos, quando eu lhe pedia para fazer um piercing ou uma tatuagem, para viajar sozinha, para sair com uma saia muito curta, para pintar o cabelo de uma cor extravagante, para comer doces antes das refeições.

E eu a odiei.
Ás vezes duravam apenas alguns segundos.
Ás vezes durava um dia inteiro.
Chegava a durar um mês.

Eu sentia raiva por achar que ela não se esforçava para me entender, por trabalhar demais e nunca ter tempo para mim, por querer se intrometer em minha privacidade, por tirar muitas vezes o meu direito de decisão, por ter sido muito dura ou muito exigente.

É muito fácil ser uma vítima, é muito fácil ver apenas pelo lado em que se está, aquele lado onde você está sempre certo.

Até que, um dia, eu decidi olhar pelo lado dela. Da minha mãe. Eu tive nojo de mim mesma.
Tentando compreender minha mãe, eu vi uma menina não muito mais velha do que eu e todas as coisas que ela perdeu a partir do momento em que ficou grávida de mim. Você já pensou como seria se, tendo plena consciência da sua juventude e em como seria maravilhoso aproveitá-la ao máximo, você escolhesse trocá-la pela maior responsabilidade que você jamais conheceu? Sim, pois a partir do momento em que se decide ter um filho, um turbilhão de responsabilidades nasce em sua vida e, a cada dia que se passa, fica cada vez maior e mais complexo. Você se torna o porto seguro de uma pessoa muito mais frágil que você, você não só tem que amadurecer, mas aprender a ser forte. Você tem plena consciência que aquele pequeno ser que está dentro de você vai crescer e vai ter centenas de necessidades. Essas necessidades vão além das roupas, alimentação e educação. Elas se estendem para as noites em claro que você irá passar acalentando um bebê que chora desesperadamente, as brigas que você terá com seu filho de sete anos que se recusa a fazer o dever de casa, as fantasias para as peças costuradas de última hora para a sua filha de dez (mesmo você tendo de ouvir que é a fantasia mais horrível de todas e a culpa é toda sua), as primeiras decepções, tão inocentes, postas para fora em um choro desesperado, onde você terá que abraçar o seu filho e fazê-lo entender que não há como viver sem se ferir, mas cada cicatriz resulta em amadurecimento.
Tantas vezes você sentiu raiva por sua mãe trabalhar demais e não ter tempo para você, mas nunca percebeu as olheiras em sua face, ou as madrugadas em que ela passou em claro no computador, só para que nunca faltasse comida na mesa de sua casa, para que você continuasse a estudar naquela escola, comprar aquele casaco e tênis novos que você estava precisando, ou te dar de natal aquele celular que você desejou como se fosse uma necessidade de 'vida ou morte'. Tantas vezes você reclamou quando ela lhe proibiu de sair com os amigos até que tirasse notas melhoras, mas nunca percebeu quanto tempo faz que ela não sai com as amigas dela. Por que você acha que isso acontece? Por que você acha que ela nunca tem tempo? Porque ela quer?

Muitas vezes passam anos até que você comece a compreender certas coisas. Algumas pessoas chegam a jamais compreender. De qualquer forma, quando acontece, você percebe o quanto se arrependeria se tivesse feito aquela tatuagem aos quinze anos, e que você jamais conseguiria o emprego legal que tem hoje se tivesse colocado aqueles piercings. Você vê nos noticiários sobre aquelas jovens garotas que foram machucadas e violentadas somente pelo fato de usarem roupas que chamassem a atenção, e suspira aliviada por não ter sido você. Percebe que aquele garoto realmente não era uma boa pessoa, você não precisava daquelas coisas, aquela amiga era mesmo falsa. Falando em amigos... Lembra os amigos para os quais você passou horas a falar da raiva que sentia de sua mãe? Aqueles pelos quais você passou semanas sem olhar pra cara dela por ela ter lhe proibido de sair com eles? Com quantos você ainda fala hoje? Quantos são realmente - mas realmente mesmo- importantes pra você? Qual deles você vê fazendo parte da sua vida daqui a dez anos anos? Qual deles daria a vida por você? Já lhe ocorreu quantas vezes você machucou e abandonou aquela pessoa que tem você como a coisa mais importante da vida dela por pessoas que você nem sabe se ficariam ao seu lado quando todos lhe virassem a cara?

Quem foi que lhe abraçou e lhe consolou em todas as 'maiores decepções da sua vida'? Quem foi que correu para o seu quarto quando você teve um pesadelo e ficou ao seu lado até que dormisse? Quem foi que sempre ligou para você durante o dia todo só para saber se você está bem? Quem é que lê livros de auto-ajuda, assiste documentários, está sempre perguntando, tentando saber como é ser da idade que você tem na época atual e, ainda assim, jamais contesta quando você a olha nos olhos e diz 'você não me entende e sequer tenta entender'. Quem foi que passou a madrugada inteira acordada esperando você chegar de uma festa, a quase morrer de preocupação ao pensar em todas as coisas ruins que poderiam lhe acontecer? Quem foi que lhe obrigou a estudar, pensando no seu futuro, aquele futuro que você sequer se importava? Quem foi que ficou horas ao seu lado quando você esteve doente, completamente propensa a pegar também a sua doença, quando todas as outras pessoas apenas ligavam para desejar 'melhoras'?

Foi ela. Sempre foi ela. E você ainda duvida que ela daria a vida por você. Ela já deu. E ela continua a se doar dia após dia.

Lembra daquele seu amigo que você machucou de tal forma que nunca mais se falaram? Lembra o quanto doeu em você saber que o havia machucado? É, mas você machucou. E ele foi embora. Mas aposto que você nunca machucou um amigo da forma que já machucou sua mãe. Ela teve que ouvir as suas palavras maldosas, ouvir que você a odiava, seus gritos, ver ódio em seus olhos. Ela viu você fazer pouco caso de coisas pelas quais ela teve de lutar arduamente para conseguir. Ela viu você planejar sair de casa aos dezoito anos por não aguentar mais ficar perto dela. Ela sentiu o seu desrespeito ao fugir da aula, voltar fora da hora marcada, experimentar coisas que você sabia que não eram boas, mentir, enganar, manipular. Pode ter certeza: ela percebeu e sentiu cada uma dessas coisas que você fez a ela. Só que você nunca percebeu o quão inabalável foi o amor dessa mulher, que te desculpou silenciosamente centenas de vezes sem nunca lhe jogar na cara nada do que você já tenha feito. Ela soube ver só coisas boas em você, mesmo quando até você sabia que as ruins estavam pesando mais. Ela continuou a acreditar em você quando ninguém mais a acreditava. Ela te abraçou enquanto você a empurrava. Ela esperou por você com o coração na mão quando você 'saiu de casa para não ter de olhar pra cara dela por algumas horas' e sorriu ao ver que você chegou vivo em casa. Ela chorou durante noites inteiras quando você disse que a odiava e conseguiu agir como se estivesse tudo bem a cada vez que você se aproximava. Ela escondeu de você cada um dos problemas que teve somente para continuar sendo o seu porto seguro. E, você pode ter certeza, ainda que você se torna a mais horrível e egoísta pessoa do mundo, quando todas as pessoas se afastarem de você, ela ainda estará lá. Ela te amará da mesma forma, ela ainda acreditará em você e saberá ver somente as coisas boas que você é. Sabe por que,meu caro? Por que ela te ama. Ela te ama muito mais do que você consegue compreender.

Colocando-me no lugar dela, eu comecei a compreender esse tipo de coisa. Eu passei a entender cada 'não', cada bronca, exigência e implicância. Eu nunca imaginei que uma pessoa pudesse ser tão incrível como ela é. E nunca imaginei que fosse tão egoísta. Eu me senti a pessoa mais egoísta do mundo. E o mais incrível é que, ainda assim, ela consegue me amar incondicionalmente.

Jéssica A.