domingo, 24 de junho de 2012
Defeitos
Dizem que quando você se apaixona os defeitos da outra pessoa se camuflam em meio a uma infinidade de qualidades que se idealiza.
Mas eu percebia os defeitos dele com impressionante clareza.
Para começar ele tinha duas personalidades.
Poderia ser gentil, em grande parte do tempo, mas era impossível ignorar aquele seu eu frio e distante.
Ele era impulsivo e tinha sérios problemas em controlar a sua raiva.
Ele nunca fora muito romântico.
Eu poderia dizer, é claro, que a forma doce como ele me olhava, ou o seu cavalheirismo forçado eram suficientes para anular todo e qualquer defeito.
Poderia dizer que a forma desesperada com a qual ele tentava chamar a atenção para si, ou o seu empenho para me impressionar eram meigos o suficiente para torná-lo algum tipo de príncipe encantado.
Mas eu estaria mentindo.
Ele era cheio de defeitos... Assim como eu.
Defeitos imperdoáveis.
Isso sem falar sobre o quão diferentes éramos.
Então não era como se eu não percebesse os seus defeitos.
E os percebia o tempo todo.
Eu apenas não me importava.
Estar com ele era o suficiente. Como se nos completássemos em defeitos e qualidades.
E, de alguma forma, aquilo funcionava.
terça-feira, 5 de junho de 2012
O anel
Sentei-me numa cadeira, debruçada a janela, para ver outro por do sol, que parecia tão próximo, quase palpável, quando visto daquele lugar. O contato da luz próxima ao objeto que vestia o meu dedo originava um brilho tão belo e intenso de quase cegar os olhos. Estiquei minha mão para frente e um sorriso brotou em meus lábios contemplando aquilo que era meu, só meu.
_ Você está passando mais tempo com esse anel do que comigo. Quer que eu fique com ciúmes? - soprou em meu ouvido uma voz brincalhona. O roçar de sua boca em minha nuca provocava o arrepiar de todos os pêlos do meu corpo. Era como a eletricidade... Era intenso.
_ Não se preocupe. Você é mais bonito que o anel. - sorri, fitando-lhe o rosto. - Bem, só um pouco mais bonito. Mas não se preocupe. Eu gosto mais de você.
_ Ah, estou perdido mesmo! Minha própria noiva acha o anel mais atraente do que eu.
_ Diga de novo.
_ O que? Atraente? - ele riu daquele jeito sedutor que só ele conseguia fazer.
_ Bobo! - sorri, acariciando lhe o rosto.
_ Noiva. - ele sussurrou bem perto do meu ouvido. - Minha noiva - agarrando-me forte pela cintura para aproximar os nossos corpos.
_ Sua? Então ate o direito de propriedade você quer?
_ Todo ele!
_ E quem disse que as coisas são tão fáceis? - eu ri, desvencilhando-me dele e afastando-me alguns metros. Ele não precisou de mais do que dois passos para pegar a minha mão e puxá-la ate a sua boca, beijando-a.
_ Tudo bem então. Mas eu serei só seu. Completamente.
_ Cada parte? - perguntei, envolvendo-o com os meus braços, mordendo-lhe o pescoço, a face, as orelhas.
_ Cada uma delas! - ele sussurrou, apoiando sua mão na curva das minhas costas. Os olhos nos meus (e é fascinante como se olha diferente quando se está apaixonado). Exatamente como a noite em que ele havia feito o pedido. Era tão incrível e, ao mesmo, tempo tão amedrontador. Eu sempre imaginei como seria o momento. Certamente só dali a alguns anos. E, agora, estava acontecendo sob os meus olhos. Como eu poderia saber se estava pronta para unir-me a ele, unir-me de corpo e alma naquela eternidade dos anos? Você nunca sabe. Você sente.
_ Confie em mim. Tudo dará certo. Nós continuaremos a ser felizes como somos assim, juntos. - eu me lembrava bem daquelas palavras. E eu confiava. Nunca precisei desconfiar um segundo sequer. Eu nunca me arrependia das decisões que tomava em relação a ele e algo dentro de mim insistia em dizer que não seria diferente.
Ele encaixava nossos corpos com tanta firmeza e agilidade que poderia levar-me para onde quisesse. O sofá era mais perto do que a cama. Nosso sofá. Nossa cama. Eu tinha de me acostumar com aquilo.
_ Nossa casa...! - ele fez com que eu repetisse dezenas de vezes depois que eu aceitei apenas porque havia referido à casa como dele. E era realmente dele. Que mania de teimosia ele insistia em ter!
_ Não. É nossa. Será nossa. E nos pertenceremos um ao outro. - ele dizia.
Os botões eram difíceis de abrir. Mas depois a camisa descia facilmente pelos braços dele. Eu apertei-os enquanto lhe beijava a clavícula, o peitoral, a barriga. Eu arranhei-os enquanto ele fazia o mesmo em mim.
_ Então eu farei bom proveito. - sorri enquanto ele puxava meu corpo para cima do dele. Sua respiração quente arrepiava-me o pescoço enquanto eu tateava a procura do botão que abriria aquela calça. Uma sucessão de sussurros e suspiros se sucedia enquanto nos livrávamos daquilo que nos prendia.
_ Eu te amo. - ele disse. - E nós nos encaixamos. E era a hora em que mais nos pertencíamos. Eu pertencia a ele em todos os aspectos físicos e emocionais. Meu corpo chamava por ele, minha mente chamava por ele. Era tão somente meu. Tudo nos era sincronizado, até mesmo o pensamento. Era como uma viagem que trazia uma satisfação imensurável ainda depois do fim.
_ Eu também te amo. – sussurrei, abraçando-me a sua cintura, pousando a minha cabeça sobre o seu peito e todo o peso do meu corpo exausto sobre o dele. Suas mãos entrelaçaram-se em meus cabelos, molhados pelo suor.
_ Eu quero ficar ao seu lado pra sempre.
_ Nós ficaremos. - eu disse, pousando a minha mão com a aliança ao lado da dele. - Elas são a prova de que pertenceremos um ao outro para sempre.
_ Não. - ele sorriu, tocando o meu rosto - Nos somos a prova.
sábado, 2 de junho de 2012
Sentir
"Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como pude ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.
Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. ...Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existiu morte para o que nunca nasceu....
Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.
Simplesmente isso. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza....
Sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinta falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, em não dar conta, em não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me reter.
Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de lamber suas coxas, a pele lisa, o joelho, a nuca, o umbigo, a virilha, as sujeiras. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria."
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